
As bets passaram a ocupar espaço na vida dos brasileiros e ajuda a dimensionar um problema que começa a ultrapassar as fronteiras do entretenimento e das finanças, gerando impactos sobre a saúde mental e o trabalho. No ambiente corporativo, os sinais podem aparecer antes mesmo de qualquer diagnóstico e o avanço dos casos relacionados ao Transtorno do Jogo já é uma realidade que precisa ser considerada pelas organizações.
“Quedas no rendimento, atrasos, preocupação constante com dinheiro, uso frequente do celular para acompanhar apostas durante o expediente, pedidos recorrentes de empréstimos aos colegas, lideranças e à empresa, conflitos interpessoais e dificuldade de concentração podem representar sinais de alerta que merecem acolhimento e encaminhamento adequado, pois ampliam os riscos para trabalhadores e organizações”, afirma Fátima Macedo, CEO da Mental Clean, psicóloga especializada em saúde mental corporativa.
O impacto não necessariamente aparece de forma imediata. Uma pessoa pode começar a acompanhar resultados durante o horário de trabalho, perder tempo de produtividade, comprometer o sono por passar horas acompanhando partidas ou enfrentar dificuldades financeiras que acabam repercutindo nas relações com colegas e familiares. Em atividades nas quais atenção e concentração são fundamentais para a segurança, o problema pode ganhar uma dimensão ainda mais crítica.
Para Patrícia França, psicóloga especialista em comportamentos compulsivos, existe também um mecanismo psicológico que contribui para a manutenção do comportamento. “A sensação de estar ‘quase ganhando’ mantém o cérebro na expectativa de um resultado positivo, ativa o sistema cerebral de recompensa e desencadeia a liberação de dopamina de forma semelhante ao que ocorre quando a pessoa efetivamente vence uma aposta. Esse mecanismo reforça o comportamento e torna cada vez mais difícil interromper o ciclo das apostas”, explica. A situação pode se agravar quando o jogador passa a apostar para recuperar perdas.
NR-1 amplia responsabilidade das empresas
A atualização da NR-1 trouxe mais atenção para o gerenciamento dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Embora a norma não mencione especificamente as apostas on-line, ela estabelece a necessidade de que as organizações identifiquem, avaliem e controlem fatores capazes de comprometer a saúde e a segurança dos trabalhadores.
Nesse cenário, as bets podem ser incorporadas às iniciativas mais amplas de promoção da saúde mental e prevenção de comportamentos compulsivos. A estratégia, entretanto, não deve ser transformar gestores em fiscais da vida pessoal ou financeira dos funcionários. O foco deve estar na prevenção, na informação e na criação de canais seguros de acolhimento.
Palestras, rodas de conversa, campanhas educativas, materiais informativos e treinamento das lideranças podem contribuir para reduzir o estigma e facilitar a identificação precoce de situações de risco.
Também é importante preparar os gestores para reconhecer mudanças de comportamento sem tentar diagnosticar o trabalhador. Quedas de produtividade, atrasos, faltas, conflitos e dificuldade de concentração podem ter diversas causas. O papel da liderança é acolher, conversar de maneira respeitosa e orientar para os canais adequados de apoio.











